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(Des)organizar a (bio)diversidade da ciência no Museu

17 Abr 2017 - 16h34 - 3.207 caracteres

Em atividade desde 2006, sediado no primeiro laboratório que foi construído para o ensino e a investigação da e sobre química em Portugal, o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra tem tentado inventariar e preservar as coleções atualmente mais antigas inerentes à física, astronomia, química, história natural e ciências médicas. De momento conta com uma exposição permanente “Segredos da Luz e de Matéria”, e com três temporárias: L’ afrique des Routes; Memórias Feridas, Corpos Revelados; Mapas do Cosmos.

No que diz respeito à organização de objetos (ex. aves, mamíferos, répteis e insetos) ainda se verifica a organização típica por localização geográfica, levando-nos a questionar se não seria possível uma catalogação que fuja à anterior fixação. Este exercício, desorganizar para (re)organizar corresponde a um desafio de singular responsabilidade científica e que é, por vezes, impossível.

Através do contacto com a equipa responsável pela exposição temporária a inaugurar a 20 de abril “Ao Encontro de África: A Identidade de Moçambique através da sua Biodiversidade” percebi algumas das provocações, críticas e dificuldades que enfrentam ao organizar exposições para mostra pública. Por um lado, a organização de coleções por catálogos que, por si só, são antigos; por outro lado, a tentativa de inovar a perspetiva organizacional, nomeadamente, pela taxonómica, mas que não será compatível com todos os métodos e critérios de conservação.

Sobre a exposição “Ao Encontro de África: A Identidade de Moçambique através da sua Biodiversidade” podia também dizer-se, certamente, que a apropriação dos objetos indígenas, por exemplo, se transmite muitas das vezes numa exposição colonial que é reafirmada em cada demonstração de conhecimento sobre os próprios objetos, instrumentos, etc.; podia perguntar-se pelo significado antropológico da exposição; ou até mesmo porque é que a história da ciência faz dos saberes locais um motor pela biodiversidade. Contudo, e creio poder dizê-lo de um modo lato, estou certa que todos e todas nós entendemos a importância de reconhecer/identificar a biodiversidade no contexto das sociedades contemporâneas, bem como a dificuldade de passar este conhecimento – comunicar em ciência – para o grande público e não apenas para as comunidades científicas.

O melhor é mesmo ir e ver a dificuldade de (Des)organizar a (bio)diversidade da ciência no Museu!

 

Lia Raquel Neves (Cientista Social)


© 2017 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva


Lia Raquel Neves

Lia Raquel Neves formou-se em Filosofia, na  Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, integrando,  de seguida, o Mestrado em Saúde Pública, na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, elaborando a tese: «A Saúde como Autêntico Problema de Saúde Pública». Nos últimos cinco anos trabalhou no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (Grupo de História e Sociologia da Ciência), investigando questões que entrecruzam a filosofia e sociologia da ciência com a evolução histórica e científica do conceito de saúde, bem como questões de ética prática e bioética. Posteriormente, trabalhou no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, tendo integrado o projeto "Intimidade e Deficiência: cidadania sexual e reprodutiva de mulheres com deficiência em Portugal", onde fez parte do Núcleo de Estudos sobre Democracia, Cidadania e Direito (DECIDe). Já em Lisboa integrou a reta final do projeto Genetics Clinic of the Future (financiado pela Comissão Europeia no âmbito do Horizonte 2020) sediado no grupo de Ciência e Políticas no Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa.  Atualmente, trabalha no Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e os seus interesses de investigação estão voltados para a bioética e tecnologias em saúde. 


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