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Contrato de Trabalho Vs. Contrato de Bolsa: onde está a ciência?

29 Ago 2017 - 17h18 - 2.365 caracteres

Não gosto de ver as pessoas a serem obrigadas a tomarem decisões difíceis” foi assim que um amigo próximo reagiu quando lhe expliquei o desejo de me afastar do dito “sistema de bolsas”. Não disse da investigação em si, ainda que questione como poderei fugir deste sistema se não tenho um Contrato de Trabalho e me aprisiono, ano após ano, com um Contrato de Bolsa…

À parte disto, pergunto-me a mim mesma, o que é isso de ser investigador(a) em Portugal? Para lá das condições técnicas, será necessário um “vínculo institucional” para cumprir a curiosidade de investigar?

Não será esta pressão, utópica sensação de vínculo institucional como vínculo de trabalho, um modo de silenciamento polido ao estilo de “mais vale isto do que nada” – a interiorização consentida (quer seja por medo, quer seja por preconceito) de que um investigador(a) é um bolseiro(a) e não um trabalhador, a par de um outro problema endogamia institucional (que vai retirando o direito expresso da palavra)?

Talvez não possa dizer nada, de um modo objetivo, que a ABIC (Associação de Bolseiros de Investigação Científica) não tenha já reivindicado. Mas vale a pela (re)lembrar que é sob o epíteto de ciência/ científico que nos são levados direitos básicos como a: i) Integração no regime de segurança social (contribuir para o IRS e a solicitar subsídios de férias, natal…desemprego?!); ii) Falta de atualização do valor das bolsas; iii) Regime de contratação condigno (o insuficiente Decreto-Lei n.º 57/2016, de 29 de agosto).

Sem ir a outros aspetos, nomeadamente, a autoria de artigos científicos, ou a imposição de horário de trabalho… interessa dar a pensar – para o ano letivo 2017/2018 - que a precariedade dos/as investigadores/as continua a assumir diferentes modalidades que culminam no abuso do Estatuto do Bolseiro de Investigação Científica.

Bom trabalho!

 

Lia Raquel Neves


© 2017 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva


Lia Raquel Neves

Lia Raquel Neves formou-se em Filosofia, na  Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, integrando,  de seguida, o Mestrado em Saúde Pública, na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, elaborando a tese: «A Saúde como Autêntico Problema de Saúde Pública». Nos últimos cinco anos trabalhou no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (Grupo de História e Sociologia da Ciência), investigando questões que entrecruzam a filosofia e sociologia da ciência com a evolução histórica e científica do conceito de saúde, bem como questões de ética prática e bioética. Posteriormente, trabalhou no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, tendo integrado o projeto "Intimidade e Deficiência: cidadania sexual e reprodutiva de mulheres com deficiência em Portugal", onde fez parte do Núcleo de Estudos sobre Democracia, Cidadania e Direito (DECIDe). Já em Lisboa integrou a reta final do projeto Genetics Clinic of the Future (financiado pela Comissão Europeia no âmbito do Horizonte 2020) sediado no grupo de Ciência e Políticas no Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa.  Atualmente, trabalha no Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e os seus interesses de investigação estão voltados para a bioética e tecnologias em saúde. 


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