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Dis|simulação

02 Ago 2018 - 15h58 - 4.232 caracteres

Retomando com a questão que iniciei numa crónica anterior (http://imprensaregional.cienciaviva.pt/conteudos/artigos/?accao=showartigo&id_artigocir=1051) sobre o que fora representado na temporada 1 da série Westworld, volto a perguntar: será um robot capaz de fazer escolhas éticas, ou será programado – dentro de um padrão moral específico – para responder em concordância com esse mesmo padrão? Poderá uma Inteligência Artificial (IA) vir a saber porque age de um determinado modo?

Na segunda temporada de Westworld, Dolores (Evan Rachel Wood) demonstra uma evolução da sua personagem, dando-nos a possibilidade de pensar alguns temas como o transumanismo e/ou machine learning, e/ou simulação.

No sexto episódio (“Phase Space”), por exemplo, Bernard (Jeffrey Wright) expressa uma dúvida receosa sobre Dolores (Evan Rachel Wood), a propósito do modo como esta poderia vir a desenvolver as suas escolhas - portanto, assistimos a dois robôs a mimetizarem o funcionamento de um sistema comportamental, sendo que Bernard estaria num contexto de simulação orientado por Dolores, levando-me a pensar num contrassenso: por um lado seriam capazes de pensar, de ter consciência para querer optar, de compreender a sua humanidade (ou evolução de personalidade); por outro lado, não têm a capacidade de se auto definirem/auto distinguirem de uma ‘máquina’, ainda que consigam auto definir-se como um aprimoramento humano.

Surge-me a associação direta à questão do “internalismo” e “externalismo” amplamente trabalhada por Bernard Williams (1979) no artigo “Internal and External Reasons”. No “internalismo” as razões para ação são as mesmas que as razões da motivação para ação, ao passo que no ‘externalismo’ podemos dizer que as razões de um agente para agir (passando a redundância) não fazem parte da estrutura da motivação para a ação, sendo esta última: externa - p. ex. um androide programado. Fica então a questão, sob a qual assenta a distinção do internalismo | externalismo – onde encontramos, em Westworld (Dolores), a noção de que as razões se encontram num conjunto motivacional subjetivo e de como é que este conjunto é base racionalista de uma determinada ação?

A substituição do humano através de um upload da consciência para o mundo virtual (O Vale - no episódio “The Passenger) – tal como tem sido explorada em algumas app. como a Eterni.me (sobre a qual também já por aqui escrevi) volta a deixar-nos novamente uma mensagem sobre o posicionamento da tecnologia face ao humano: tudo se passa como se houvesse uma nova realidade que escapa à nossa compreensão sensorial (algo que Kant também nos deu a pensar). É esta a premissa que tem sido usada para validar a ideia de que vivemos numa simulação à qual chamamos, erradamente, realidade.

 

Relembrando o filme The Matrix do Nag Hammadi (1999), também nele se presumiu a existência da realidade adormecida numa simulação; o Baudrillard, na obra Simulacros e Simulação, deu-nos a ler a diferença entre realidade material e realidade social; e o Deleuze em Différence et répétition comparou o virtual ao material. A questão que coloco é - aceitando que a simulação computacional pode ser uma metáfora, no sentido de se tornar um modelo alternativo para demonstrar aquilo que tem sido descrito em termos teológicos (p. ex.): em que momento é que a discussão em torno do livre-arbítrio vs. determinismo deixa de se colocar face a uma IA que se autodefine enquanto aprimoramento humano?

 

Lia Raquel Neves


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Lia Raquel Neves

Lia Raquel Neves formou-se em Filosofia, na  Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, integrando,  de seguida, o Mestrado em Saúde Pública, na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, elaborando a tese: «A Saúde como Autêntico Problema de Saúde Pública». Nos últimos cinco anos trabalhou no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (Grupo de História e Sociologia da Ciência), investigando questões que entrecruzam a filosofia e sociologia da ciência com a evolução histórica e científica do conceito de saúde, bem como questões de ética prática e bioética. Posteriormente, trabalhou no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, tendo integrado o projeto "Intimidade e Deficiência: cidadania sexual e reprodutiva de mulheres com deficiência em Portugal", onde fez parte do Núcleo de Estudos sobre Democracia, Cidadania e Direito (DECIDe). Já em Lisboa integrou a reta final do projeto Genetics Clinic of the Future (financiado pela Comissão Europeia no âmbito do Horizonte 2020) sediado no grupo de Ciência e Políticas no Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa.  Atualmente, trabalha no Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e os seus interesses de investigação estão voltados para a bioética e tecnologias em saúde. 


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