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Investigadora portuguesa publica na Cell: silenciar genes para obter células estaminais

16 Fev 2012 - 20h30 - 3.079 caracteres

No nosso organismo existem centenas de células diferentes e muito especializadas, de acordo com o órgão em que se encontram e a função que desempenham. No entanto, todas tiveram origem comum numa única célula.

Quando esta célula inicial se divide dá origem a células estaminais embrionárias, também elas não diferenciadas. “Para que as células se diferenciem, e passem de células estaminais a células diferenciadas, é fundamental que ocorra expressão coordenada de vários genes, até então silenciados”, explica-nos a investigadora Lígia Tavares do Instituto de Biologia Molecular e Celular – Universidade do Porto (IBMC). Este processo ocorre porque há um conjunto de mecanismos que ligam e desligam genes específicos, de modo a determinar quais vão ser expressos. É o silenciamento diferencial de célula para célula, isto é, a expressão de uns genes e a inibição de outros, o que garante as diferenças entre todas elas.

Num artigo publicado na edição de 17 de Fevereiro da prestigiada revista “Cell”, coordenado pelo Prof. Neil Brockdorff da Universidade de Oxford e que tem como primeira autora Lígia Tavares, aluna de doutoramento do programa GABBA e actualmente investigadora do IBMC, é descrito um novo complexo responsável pelo silenciamento de genes em células estaminais embrionárias.

Neste artigo Lígia Tavares descreve o papel de um novo complexo, denominado RYBP-PRC1, no silenciamento dos genes. Conheciam-se dois complexos, o PRC1 e o PRC2, que agem sobre os genes e que, até agora, se pensava funcionarem interligados, ou dependentes um do outro. No entanto, a cientista portuguesa demonstra com este trabalho que o RYBP-PRC1 pode ser mobilizado para o DNA sem depender da acção de outros complexos.

O RYBP-PRC1 é responsável por muitas dos sinais que indicam à célula quais os genes a manter silenciados, sinais denominados marcas epigenéticas. Estas têm uma influência tão grande sobre as células quanto os próprios genes, já que os controlam. Por isso, através da manipulação do complexo RYBP-PRC1, em conjugação com outros, poderá ser possível reverter o processo de diferenciação e tornar células adultas em células estaminais.

Estas novas descobertas, ao abrirem a possibilidade de reverter células adultas, criam novos caminhos para terapêuticas regenerativas, uma vez que permitirão ultrapassar todas as questões técnicas e éticas subjacentes à utilização de outras células estaminais, nomeadamente as com origem em embriões.

Por outro lado, este conhecimento poderá ser usado de forma inversa. Ou seja, “recorrer a este complexo para produzir tecidos ou células específicas e especializadas”, as quais “poderão ser utilizadas em implantes ou substituições com fins terapêuticos”, explica Lígia Tavares. Mas “este futuro ainda carece de muito trabalho e investigação”, adianta. Por estes motivos, o trabalho foi considerado suficientemente inovador para que uma das mais conceituadas revistas na área das ciências da vida e da saúde, a Cell, o publicasse.

 

Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva (a partir do comunicado de imprensa do IBMC.INEC da 16 de Fevereiro de 2012)

António Piedade com Júlio Borlido Santos


© 2012 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva


António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).


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