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O que é que torna umas bactérias mais infecciosas do que outras?

01 Mar 2012 - 14h29 - 3.061 caracteres

Apenas 10 bactérias de Mycobacterium tuberculosis são suficientes para causar tuberculose. Contrariamente, são necessárias dezenas de milhões de bactérias de Vibrio cholera para causar cólera. O que é que faz com que umas bactérias sejam mais infecciosas do que outras?

A compreensão dos mecanismos que fazem com que algumas espécies de bactérias precisem de menos “soldados” do que outras espécies para causar infecção e provocar doença num dado organismo, como o nosso corpo, apresenta uma grande importância para as estratégias de prevenção a desenvolver e implementar para salvaguardar e melhorar a saúde pública.

O conhecimento médico actualmente existente descreve somente o grau de patogenicidade (capacidade de causar infecção e doença) encontrado por evidência nos estudos microbiológicos e epidemiológicos. Nestes, os diferentes microrganismos que nos causam doenças são “classificados” consoante a sua “dose de infecção” é baixa ou alta, sem que nenhuma explicação seja fornecida para a razão dessa maior ou menor habilidade que diferentes bactérias apresentam em contornar, iludir, resistir ao sistema imunitário de defesa e causar doença no organismo hospedeiro.

João Gama e Francisco Dionísio (Instituto Gulbenkian de Ciência e Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), Sara Vieira-Silva e Eduardo Rocha (Instituto Pasteur, França), pertencem a equipas de investigação que se têm debruçado sobre estas questões. As últimas respostas que encontraram acabam de ser apresentadas num artigo publicado na edição de Fevereiro da revista “PLoS Pathogens” (PLoS Pathogens 8(2): e1002503)*.

Aqueles investigadores portugueses identificaram padrões comuns entre as bactérias que são mais ou menos patogénicas e agruparam-nas em dois grupos: as que são mais infecciosas invadem e/ou destroem as células do sistema imunitário do hospedeiro; as menos infecciosas são bactérias com maior motilidade, que se multiplicam mais rapidamente e que “comunicam” mais umas com as outras (através de um mecanismo designado por “quorum-sensing”), causando infecção apenas quando estão reunidos elevados números de células bacterianas.

João Gama, estudante de Doutoramento e primeiro autor do estudo, resume da seguinte forma os resultados encontrados: “Na ‘corrida ao armamento’ entre bactérias patogénicas e os seus hospedeiros, num extremo estão aquelas que atacam frontalmente, e no outro as que agem de forma furtiva, manipulando o sistema imune do hospedeiro. As restantes bactérias situam-se entre os extremos. Os nossos resultados sugerem que podemos classificar as bactérias mais infecciosas como as furtivas, enquanto que as menos patogénicas são as que empregam ataques frontais” necessitando para isso de um número maior de unidades celulares.

 

Segundo informação divulgada pelo Gabinete de Comunicação do Instituto Gulbenkian de Ciência, “estes resultados têm implicações em saúde pública, pois ajudam a identificar padrões actuais na capacidade de infecção das bactérias, e contribuem para prever a evolução da patogenicidade dessas bactérias no futuro”.

 

António Piedade

 

 

Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

 

(*) – Artigo:  João Alves Gama, Sophie S. Abby, Sara Vieira-Silva, Francisco Dionisio, Eduardo P. C. Rocha. (2012) Immune Subversion and Quorum-Sensing Shape the Variation in Infectious Dose among Bacterial Pathogens. PLoS Pathogens 8(2): e1002503.

Link para o artigo: http://www.plospathogens.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.ppat.1002503;jsessionid=A77566E01A3D981AD7FBEB63096058B7


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António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).


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