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Entrevista a Carlos Fiolhais sobre Madame Curie

06 Nov 2011 - 15h33 - caracteres

100 anos depois da atribuição do 2º Prémio Nobel a Marie Curie e na oportunidade do seu aniversário no passado dia 7 de Novembro de 2011, uma breve entrevista a Carlos Fiolhais sobre esta mulher única.


António Piedade – Como é que a imprensa da época tratou a notícia da atribuição do Prémio Nobel, que era o segundo, algo inédito ainda hoje no que diz respeito a disciplinas científicas diferentes.

 

Carlos Fiolhais - Na altura, mais importante que o Prémio Nobel (o segundo para Madame Curie, um facto até hoje inédito para duas disciplinas científicas diferentes), foi o escândalo do envolvimento amoroso da cientista com o seu colega físico Prof. Paul Langevin. Marie Curie era viúva há uns anos, mas ele era casado e tinha filhos. A imprensa chegou a dizer que ela era uma estrangeira que destruía os lares franceses... Curie resistiu às pressões e recebeu o Nobel. Disse o óbvio: que ninguém tinha nada a ver com a sua vida privada. O romance acabou por terminar. Facto curioso: netos de um e de outro vieram, muitos anos depois, a casar-se!


AP – É possível atribuir alguma relação causal entre os Prémios Nobel atribuídos a Marie Curie e a progressiva maior participação de mulheres na actividade científica a nível mundial?

 

CF - Madame Curie é um caso singular e pioneiro. A participação das mulheres na vida científica há cem anos era muito limitada. A entrada de uma mulher como professora universitária em Portugal foi só nessa época: a filóloga Carolina Michaelis, nascida na Alemanha mas casada com um português, começou a dar aulas na Universidade de Coimbra. Madame Curie foi sempre considerada um modelo, mas a entrada das mulheres na Universidade e na ciência foi muito lenta. Pessoas como Einstein, embora admirassem Madame Curie, continuaram a achar que às mulheres faltava criatividade para fazer ciência. Estavam profundamente enganados!

 

AP – A actividade científica de Marie Curie foi conhecida em Portugal à época da atribuição dos prémios?

 

CF - Sim, o nome de Madame Curie correu o mundo. Em Portugal, as notícias de ciência eram muito raras, mas os prémios Nobel começaram desde cedo a  ter recepção mediática. Só alguns anos depois Madame Curie teve discípulos portugueses, como Mário Silva, professor de Coimbra, e Manuel Valadares, professor de Lisboa. Os dois vieram a ser demitidos pelo Estado Novo. Houve também uma discípula portuguesa de Curie, Branca Marques, de Lisboa.

 

AP – Qual a evolução da participação feminina na ciência portuguesa desde a época de Marie Curie?

 

CF - A participação feminina na ciência foi muito baixa numa época em que a ciência aliás quase não existia. Nos últimos 30 anos deu-se, porém, um crescimento enorme da ciência em Portugal, com uma participação feminina cada vez maior. Hoje Portugal pode orgulhar-se de ser um dos países da Europa e até do mundo com maior percentagem feminina na actividade científica. Isso explica-se pelo crescente acesso ao ensino superior das mulheres em Portugal no pós 25 de Abril. Em muitos cursos, tanto nas entradas como nas saídas, superam os homens.


© 2011 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva


António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).


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