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O ovo “perdido” entre aves e dinossauros

13 Jul 2012 - 20h20 - 3.298 caracteres

Foram encontrados ovos fósseis de um potencial ancestral comum às aves e aos dinossauros.

 

Quem é que nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Não querendo desbravar esta pergunta redundante, um facto é o de que a observação e análise de um dado ovo permite hoje identificar a espécie que o produziu.

Essa identificação baseia-se principalmente pela observação e registo da postura de determinado tipo de ovo por parte de indivíduos do género feminino de uma certa espécie. Diga-se, a propósito, que se designam por ovíparas as espécies cujo “embrião se desenvolve dentro de um ovo em ambiente externo e sem ligação com o corpo da mãe”.

Aves, répteis, peixes, insectos, são exemplos de animais ovíparos.

Em relação a espécies extintas, que se descobriu também serem ovíparas, a identificação do tipo de ovos com uma dada espécie é paleontologicamente efectuada a partir da correspondência entre ovos fossilizados encontrados junto de espécimens embrionários, juvenis ou adultos também fossilizados. Ou pelo menos por aqueles terem sido encontrados no mesmos períodos e estratos geológicos que as espécies que a eles ficaram associadas.

Como em muitas outras áreas do conhecimento, esta não está isenta de muitas questões por responder, dúvidas, fósseis que faltam para completar o grande puzzle da evolução. Há inúmeros elos perdidos, ou melhor e neste caso, ovos perdidos, necessários para robustecer as hipóteses em cima da mesa do paleontólogo. E uma dessas questões tem a ver com a identificação da espécie ancestral e comum às aves e aos dinossauros terópodes. Estes últimos incluem os dinossauros bípedes do Cretácico superior, como os hoje “populares e mediáticos” tiranossauros e Velociraptor.

O fóssil dessa espécie comum continua a permanecer incógnito entre algum sedimento, estrato geológico ainda não explorado. Contudo, o seu ovo poderá já ter sido encontrado. É essa a conclusão de um estudo publicado em março deste ano na revista Palaeontology. Nesse artigo, paleontólogos espanhóis da Universidade Autónoma de Barcelona e da Universidade Complutense de Madrid, apresentam as conclusões das análises de um conjunto de ovos fósseis encontrados na região de Montsec, perto de Lérida, na Catalunha. Todos os ovos são pertencentes a uma mesma espécie desconhecida de dinossauro terópode que terá vivido entre 70 e 83 milhões de anos atrás.

E o que é que isto tem de novo? É que estes ovos têm uma forma ovoide assimétrica, ao contrário de outros encontrados para dinossáurios terópodes do mesmo período que apresentam uma forma simétrica!

Ou seja: encontraram-se ovos que se assemelham aos das aves (do tamanho dos ovos das galinhas) mas que foram gerados por uma espécie ainda desconhecida de dinossauros terópodes.

E como é que os cientistas sabem que a postura foi efectuada por terópodes e não por aves? A análise da estrutura cristalina da casca aparenta-os mais à dos ovos de dinossauros (não avianos) do que aos dos das aves. Uma nova espécie de ovo com a casca do tipo da dos ovos dos dinossauros terópodes do mesmo período, mas com a forma ovóide assimétrica como a dos ovos das aves.

Assim, na falta do fóssil da espécie que os gerou, os ovos serviram aos cientistas para identificar a nova icnoespécie, a que deram o nome de Sankofa pyrenaica, candidata a ser o um ancestral comum a aves e dinossauros.

Neste caso, bem se pode dizer que foi o ovo que “apareceu” primeiro!

 

António Piedade

Ciência na Imprensa Regional

 

Referência do artigo

Nieves López-Martínez, Enric Vicens. A new peculiar dinosaur egg, Sankofa pyrenaica oogen. nov. oosp. nov. from the Upper Cretaceous coastal deposits of the Aren Formation, south-central Pyrenees, Lleida, Catalonia, SpainPalaeontology, 2012; 55 (2): 325 DOI:10.1111/j.1475-4983.2011.01114.x

 


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António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).


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