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O despertar de Rosetta

26 Jan 2014 - 14h45 - 3.888 caracteres

Longe vão os tempos em que o avistamento de um cometa, um acontecimento astronómico, era associado, pelos homens na Terra, a mensagens dos deuses, a nascimentos de reis e salvadores, ou à queda de impérios e a catástrofes naturais. O desconhecimento e o medo obscureciam o brilho dos cometas que traçavam no céu um temor cósmico.

Hoje sabemos que os cometas são corpos celestes que orbitam o Sol com períodos translacionais de dezenas ou centenas de anos. Constituídos por núcleos rochosos e gelados, podendo ter até vários quilómetros de largura, são blocos da construção primeva do Sistema Solar.

Há evidências que indicam que desde o início da formação do nosso planeta, há cerca de 4,5 mil milhões de anos, os cometas poderão ter transportado água do cosmos longínquo para a superfície da Terra. Os mares teriam sido, assim, também semeados por cometas. Sabemos que estes também têm na sua composição moléculas orgânicas, o que poderá indicar que tenham contribuído para o despertar da vida no planeta em que existimos.

Mas ainda sabemos pouco e os cientistas ainda têm muitas questões fundamentais sobre estes corpos enigmáticos do Sistemas Solar. E quando não sabemos, estudamos, investigamos. E é isso que vai ser efectuado no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko. Descoberto em 1969 pelo astrónomo que lhe dá o nome, tem um núcleo rochoso gelado com cerca de 4,5 km de diâmetro e dá uma volta ao Sol em cada 6,45 anos. 

Para estudar este cometa, a Agência Espacial Europeia (ESA), de que Portugal é membro, lançou em 2004 a sonda Rosetta. Equipada com instrumentos para a análise físico-química da composição do cometa, a sonda, fez grande parte da sua longa trajectória em hibernação, poupando assim a energia que vai necessitar para cumprir a sua missão de descoberta.

No passado dia 20 de Janeiro a sonda Rosetta acordou e o sinal do seu despertar foi recebido, pouco depois das 18h00, com entusiasmo no Centro de Operações da ESA, em Darmstadt (Alemanha). Está previsto que a sonda, que se encontra actualmente a uns 800 milhões de quilómetros de nós, comece a andar à volta do cometa em Agosto deste ano. Quando estiver suficientemente próximo do núcleo, Rosetta lançará o robô Philae que transporta, com cem quilos, e que irá pousar e fixar-se na superfície do 67P/Churyumov-Gerasimenko. Philae será o primeiro engenho humano a "acometar", investigar a superfície e efectuar análises químicas nesta classe de corpos celestes.

A Rosetta e o módulo Philae possuem 21 equipamentos científicos e esta missão será pioneira por testemunhar de perto a evolução de um cometa à medida que este se aproxima de regiões mais quentes do Sistema Solar.

O nome da sonda é uma referência à famosa pedra de Rosetta que, no início do século XIX, permitiu ao egiptólogo francês Jean-François Champollion descodificar os hieróglifos egípcios. Quanto a Philae, deve o seu nome à ilha egípcia de File onde foi encontrado o obelisco utilizado, juntamente com a pedra de Roseta, para resolver o enigma dos hieróglifos. Esperemos que Rosetta e Philae contribuam para que possamos brevemente compreender melhor o nascimento do nosso Sistema Solar e da própria vida na Terra.

António Piedade 


© 2014 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva


António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).


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