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Dez anos da descoberta do Homem de Flores

26 Nov 2014 - 12h01 - 3.410 caracteres
Género: Artigos. Áreas: Antropologia
Por: António Piedade

Há dez anos foi revelada a descoberta de uma nova espécie humana que terá vivido há 18 mil anos na Ilha de Flores (Indonésia): o Homo floresiensis. A publicação da sua descoberta na revista Nature, no dia 27 de Outubro de 2004, causou um reboliço na cabeça de muitos paleontólogos.

Uma década depois, continua a haver mais perguntas do que respostas sobre o esqueleto encontrado na Ilha de Flores, que era de uma mulher com um volume cerebral com um terço do da nossa espécie e com um metro de estatura. Esta nova espécie foi inicialmente considerada como descendendo do Homo erectus, o primeiro dos nossos antepassados que se pensa ter saído de África.

Mas tinha uma outra peculiaridade: era o primeiro exemplar da família humana que teria minguado de tamanho para se adaptar à vida numa ilha pequena. Esta adaptação provocada pela falta de recursos é algo comum em várias espécies de animais, mas insólito até então na nossa. Para além disto, o tamanho pequeno do seu cérebro ia também contra a tendência geral na nossa espécie de aumentar o volume cerebral. Refira-se que de resto, e para desconcerto dos paleontólogos, o esqueleto apresentava características humanas modernas!

De facto, o esqueleto da “Mulher de Flores” apresenta ossos do crânio modernos, dentes pequenos, cara pouco proeminente. Mas alguns cientistas colocaram a hipótese de poder ser um espécime do Homo sapiens com alguma enfermidade que justificasse o seu tamanho pequeno. Nesta linha de pensamento, um artigo recente publicado na revista PNAS sugere que o esqueleto tem elementos que se assemelham à síndrome de Down. Mas, por outro lado, as extremidades dos seus membros são mais parecidas com as dos grandes símios africanos, uma morfologia que não favorece a hipótese anterior.

Numa análise recentemente publicada na revista Nature, Chris Stringer, do Museu de História Natural de Londres e especialista na origem da nossa espécie, sugere que o esqueleto encontrado pode estar mais aparentado com os australopitecos, que alguns primatólogos defendem ser uma linhagem pré-humana cujo representante mais famoso é Lucy, com uma antiguidade de 3,2 milhões de anos. O Australopithecus afarensis e o Homem de Flores têm em comum o seu pequeno tamanho e reduzido volume cerebral.

Esta semelhança com linhagens mais antigas coloca em causa a hipótese de que terá sido o Homo erectus o primeiro dos nossos antepassados a sair do continente africano. E avançaria o momento de uma primeira migração de hominídeos em várias centenas de milhares de anos sobre o que é geralmente aceite até agora.

Isto supõe que o Homem de Flores poderia ter evoluído em África, de onde teria saído há uns milhões de anos já com o seu tamanho reduzido! A ser verdade, esta hipótese obriga de novo a reescrita da história da evolução humana que, diga-se a propósito, continua a ser um verdadeiro quebra-cabeças.

 

António Piedade


© 2014 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva


António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).


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