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Água Solar

11 Fev 2015 - 15h15 - 4.059 caracteres

A água é essencial para a vida. De facto, no nosso planeta, a vida precisa de água para existir. Esta dependência aquosa tem levado os cientistas a tentar encontrar água em outros planetas como indicação da possibilidade de a vida também aí existir ou, pelo menos, já ter existido.

Contudo, a simples presença de água não é condição única para a existência e desenvolvimento da vida tal qual a conhecemos. É que, apesar de só conhecermos a existência de vida no nosso planeta, os cientistas têm encontrado água um pouco por todo o universo e em locais nos quais não esperaríamos que houvesse. É o caso do Sol.

Saiba o leitor que há 20 anos foi descoberta a presença de moléculas de água, no estado de vapor, na fotosfera do Sol, mas precisamente nas regiões das manchas solares, locais em que a temperatura é mais baixa: só cerca de 3000 graus Celsius! (a temperatura da fotosfera solar é no mínimo de 6000 graus Celsius). Apesar de haver água no Sol, tanto quanto sabemos a vida não é possível neste astro devido às elevadas temperaturas que apresenta.

A descoberta da existência de água no Sol foi publicada na revista Science (na edição de 26 de Maio de 1995, volume 268, páginas 1155-58). Desde então, esta descoberta foi confirmada quer teórica quer experimentalmente. E, a procura da assinatura da molécula da água na luz que nos chega do universo levou também à sua descoberta em muitas outras estrelas (maioritariamente do tipo M, com temperaturas da fotosfera de cerca de 3000 graus Celsius), como Betelgeuse e Antares (Science, 1998, volume 279, páginas 844-847). A origem da água nas estrelas continua sem ser conhecida.

A presença de água nestes astros foi descoberta pela análise do espectro da luz emitida pelas suas fotosferas na região do infravermelho. O espectro é aquilo que resulta da decomposição da luz nos diversos componentes ondulatórios que a compõem. O espectro visível da luz solar foi pela primeira vez estudado na notável experiência de decomposição da luz realizada pelo físico inglês Isaac Newton, em 1666, em que mostrou que a luz branca se pode decompor num conjunto de luzes de várias cores. Newton explicou assim a natureza do arco-íris. Mas também abriu portas para a ciência que se lhe seguiu.

Em 1814, o alemão Joseph von Fraunhofer repetiu a experiência de Newton, mas usando um novo instrumento, o espectroscópio, que inventou. Com ele descobriu que a banda de cores que ia do violeta ao vermelho, na luz solar decomposta, apresentava finas riscas negras e verticais.

Mais tarde, em 1859, os também alemães Robert Bunsen e Gustav Kirchhoff mostraram que cada elemento químico produzia riscas especificas perfeitamente definidas e localizadas no espectro luminoso. Foi assim descoberto um dos mais potentes instrumentos para o conhecimento da natureza dos astros que irradiam luz (própria ou reflectida), a espectroscopia. Passou a ser possível conhecer a composição elementar e molecular das estrelas sem precisarmos de ir até elas. A espectroscopia tornou-se assim uma ferramenta poderosa para conhecermos a natureza do Universo.

Desenvolvimentos posteriores permitiram analisar também as componentes invisíveis da radiação irradiada por aqueles astros (infravermelho, ultravioleta e outros comprimentos de onda), aumentando assim a nossa capacidade de encontrar e identificar moléculas.

E é assim, através da análise da luz que descobrimos o universo.

 

António Piedade


© 2015 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva


António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).


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