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Escolher criteriosamente em saúde

08 Nov 2018 - 15h16 - 4.291 caracteres

Perante uma necessidade crescente da população para recorrer aos serviços que prestam cuidados de saúde, não se deverá excluir e/ou esquecer a indispensabilidade de refletir sobre estes mesmos serviços/ cuidados/ necessidades/ direitos. Em suma, tudo aquilo que implica pensar as diversas esferas que se relacionam com saúde.

A título exemplificativo é possível pensar o seguinte: a complexidade para analisar o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde reclama pela monitorização de diversos parâmetros e, no mesmo lance, pela contínua atualização das tecnologias de informação em saúde. Isto quer dizer, entre outros aspetos, que os mecanismos que regulam esta monitorização requerem uma atenção permanente por parte do Ministério da Saúde. Como tal, é indispensável a implementação de medidas/ programas/ ferramentas que possam contribuir para a melhoria dos serviços, dos cuidados, das necessidades e dos direitos. Dizer isto é também declarar um compromisso com a educação, com a literacia em saúde e com a saúde para todos - um objetivo, aliás, que fora proposto pela esquecida Carta de Ottawa em 1986 (http://www.who.int/healthpromotion/conferences/previous/ottawa/en/ ).

Do ponto de vista da comunicação em ciência, na sua função social e não protocolar de informar, pode assinalar-se um exemplo recente deste compromisso mencionado anteriormente: Choosing Wisely Portugal – Escolhas Criteriosas em Saúde. Trata-se de um programa de Educação para a Saúde que teve início em 2012 nos Estados Unidos da América pelo American Board of Internal Medicine (http://www.choosingwisely.org/ ), tendo sido adotado por diversos países e, agora, por Portugal. Ora, como se explica a relação entre o Choosing Wisely Portugal e a melhoria dos serviços, dos cuidados, das necessidades e dos direitos das pessoas?

A questão não terá, por certo, uma resposta exclusiva. Poder-se-á projetar através da leitura de uma recomendação disponibilizada pelo Choosing Wisely Portugal (subscrita pelo Colégio da Especialidade de Medicina Geral e Familiar da Ordem dos Médicos e pelo Colégio da Especialidade de Saúde Pública da Ordem dos Médicos) sobre ‘Check-ups’ anuais a adultos assintomáticos, sem fatores de risco e sem problemas de saúde diagnosticados (https://ordemdosmedicos.pt/check-ups-anuais-a-adultos-assintomaticos-sem-fatores-de-risco-e-sem-problemas-de-saude-diagnosticados/) duas melhorias provenientes do Choosing Wisely: o aumento do nível de literacia em saúde individual e, ao mesmo tempo, enquanto material pedagógico – a melhoria de práticas instituídas nos cuidados de saúde primários.  

Evidentemente que do ponto de vista de análise das ciências sociais e humanas, é possível apresentar outras questões sobre este programa como se poderemos, ou não, comentar a priorização dos temas, os parâmetros de análise, ou a metodologia selecionada e não será difícil de assumir que conseguiremos sempre levar adiante uma análise crítica – dependendo da “lente” e da finalidade com que olhamos para estes/as, ou até de aspetos tão complexos e básicos como a falta de consenso científico quanto ao modo de definir saúde. Contudo, é inegável que da decisão em saúde - e do risco que assume um/a profissional de saúde ao deliberar - faz parte a melhor evidência científica atual. Este aspeto é crucial para a melhoria da comunicação entre os profissionais de saúde e os doentes, para a monitorização dos serviços, dos cuidados e das necessidades.

 

Lia Raquel Neves


© 2018 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva


Lia Raquel Neves

Lia Raquel Neves formou-se em Filosofia, na  Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, integrando,  de seguida, o Mestrado em Saúde Pública, na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, elaborando a tese: «A Saúde como Autêntico Problema de Saúde Pública». Nos últimos cinco anos trabalhou no Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra (Grupo de História e Sociologia da Ciência), investigando questões que entrecruzam a filosofia e sociologia da ciência com a evolução histórica e científica do conceito de saúde, bem como questões de ética prática e bioética. Posteriormente, trabalhou no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, tendo integrado o projeto "Intimidade e Deficiência: cidadania sexual e reprodutiva de mulheres com deficiência em Portugal", onde fez parte do Núcleo de Estudos sobre Democracia, Cidadania e Direito (DECIDe). Já em Lisboa integrou a reta final do projeto Genetics Clinic of the Future (financiado pela Comissão Europeia no âmbito do Horizonte 2020) sediado no grupo de Ciência e Políticas no Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa.  Atualmente, trabalha no Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e os seus interesses de investigação estão voltados para a bioética e tecnologias em saúde. 


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