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Entrevista a Carlos Fiolhais sobre o bosão de Higgs

06 Jul 2012 - 14h49 - 3.517 caracteres
Género: Entrevistas. Áreas: Física
Por: António Piedade

António Piedade (AP) - Quais são hoje as partículas elementares da matéria, 100 anos depois do modelo de Rutherford para um átomo, com protões e neutrões num núcleo orbitado por electrões?

Carlos Fiolhais (CF) - As partículas elementares de matéria são os quarks (que formam os protões e neutrões do núcleo atómico), os electrões e os neutrinos.

 

AP - Então o que são bosões?

CF - Bosões são as partículas de campo ou de energia, que asseguram as forças ou interacções. As partículas elementares de matéria (quarks, electrões e neutrinos) são, por seu lado, fermiões. Podemos dizer que os fermiões se relacionam graças à troca de bosões: como dois cães que se mantêm unidos porque vão trocando um osso.

De outra forma, bosões são partículas que podem ocupar o mesmo estado de energia, ao contrário dos fermiões, que não podem. O nome homenageia Bose, um físico indiano que escreveu a Einstein e que Einstein apoiou. Um condensado de bosões é um aglomerado de bosões no mesmo estado. Não há condensados de fermiões, a não ser que estes se associem para formar bosões (é o que acontece, por exemplo, com os electrões na supercondutividade).

 

AP - E o que é o bosão de Higgs?

CF - Uma partícula de campo ou de energia, que contrasta com uma partícula de matéria. Foi proposta nos anos 60 por Higgs e outros como unidade (grão ou /quantum) de um campo, o campo de Higgs, necessário para dar massa às partículas de matéria.

 

AP - Em que consiste o modelo padrão da Física?

CF - Trata-se da descrição de partículas de matéria e de campo conhecidas, isto é, dos constituintes da matéria e das interacções fundamentais entre elas. Assenta teoricamente em princípios de invariância relativamente a operações de simetria. Uma bela teoria, portanto. Mas os físicos não estão satisfeitos com o modelo, pensam que há mais qualquer coisa...

 

AP - Qual a importância do campo e do bosão de Higgs para a compreensão da matéria?

CF - Sem esse campo, e o respectivo bosão, não há uma maneira fácil de explicar a massa das partículas de matéria.

 

AP - Há alguma relação entre o bosão de Higgs e a matéria escura?

CF - Que se saiba não. Mas poderá haver. A matéria escura - matéria que não se vê - e a energia escura - energia antigravitacional - são dois dos mistérios maiores do Cosmos.

 

AP - Porque é que ainda não podemos afirmar que o bosão encontrado nas experiências ATLAS e CMS é o Higgs?

CF - Encontrou-se um pico à energia de 125 GeV analisando os processos de decaimento que se seguem a choques a altas energias. Falta, porém, saber quais são as propriedades dessa partícula, cuja existência acaba de ser assegurada. Conhecendo a sua energia podem afinar-se as observações.

 

AP - Qual foi a participação portuguesa nestas experiências?

CF - Há vários físicos portugueses no CERN ou em Portugal a participar nas equipas dos detectores CMS e ATLAS (os resultados do primeiro são mais importantes na descoberta do Higgs).

 

AP - Quais são os passos que se seguem?

CF - Há que analisar melhor os processos à energia da partícula encontrada.

 

AP - Porque é que o bosão de Higgs recebeu a denominação de "partícula de Deus"?

CF - Uma brincadeira do físico Leon Lederman, que esteve há anos em Portugal a fazer uma palestra na Figueira da Foz. Deu o título de "partícula de Deus" a um livro que escreveu com um jornalista, provavelmente com o objectivo de maximizar as vendas do livro. A palavra pegou, apesar de ser despropositada. Os físicos não chegaram mais perto de Deus com esta descoberta até porque o papel da física não é a aproximação a uma divindade.

 

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António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).


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