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A ameaça da tuberculose continua hoje

06 Set 2012 - 16h55 - 3.351 caracteres

Há 130 anos, uma Primavera nascia para quem sofria de tuberculose.

Na noite do dia 24 de Março de 1882, o alemão Heinrich Robert Koch apresentou, no anfiteatro da Sociedade de Fisiologia de Berlim, e pela primeira vez o agente microbiano causador da tuberculose: o bacilo de Koch, como ficou conhecido, mais tarde e em sua honra (Mycobacterium tuberculosis é o seu nome científico).

O silêncio acompanhou a sua apresentação e ninguém tossiu. Naquela noite, viveu-se um marco histórico da luta incessante da humanidade contra o carbúnculo da tuberculose, doença que matava (e mata) uma percentagem muito significativa da população. Para além disso,

Robert Koch viria a ganhar, em 1905, o prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina pelos seus trabalhos pioneiros na epidemiologia.

Esta descoberta foi muito importante. O artigo da sua descoberta estabeleceu a primeira etiologia da tuberculose e continha os importantes Postulados de Henle-Koch. Estes permitem estabelecer, ainda hoje, uma relação causal entre um dado agente microbiano e uma determinada doença. De referir que os postulado só foram revistos em 1976 por Alfred Evans, tal era a sua robustez clinica e científica.

Desde então, e de modo igual para com outras doenças, identificar o bacilo é fundamental para travar a sua disseminação por contágio e assim poder tratar os infectados.

Hoje sabemos que o bacilo de Koch é um longínquo companheiro da evolução humana. Já existindo muito antes dos nossos primeiros ancestrais hominídeos, seguramente até antes dos primeiros mamíferos, o M. tuberculosis adaptou-se espantosamente ao tecido pulmonar humano. De tal forma que o pulmão é o seu albergue por excelência, o seu paraíso microbiano, e é muito difícil combate-lo uma vez ali instalado.

Para agravar a situação, e tal como com outras bactérias, este bacilo possui a habilidade de ganhar resistência aos antibióticos que contra ele desenvolvemos. Em particular, o M. tuberculosis desenvolve multirresistência, isto é, resiste a cocktails de vários antibióticos, pelo que a galopante reincidência da tuberculose a nível mundial é uma preocupação crescente para as autoridades de saúde.

E de facto, o aparente sossego público contrasta com o grande número de projectos de investigação sobre a tuberculose actualmente em curso a nível mundial. Isto mesmo foi inventariado em 2012 na revista  "The Lancet Infectious Diseases", num artigo em que são destacadas as principais áreas de investigação referidas em outras 33 publicações. Particular preocupação é encontrada, a nível mundial, na prevenção e tratamento da tuberculose multirresistente em pessoas infectadas com o HIV.

A importância que a descoberta do bacilo de Koch há 130 anos teve para a história da medicina moderna é revista, sob várias perspectivas, num artigo agora publicado na revista “New England Journal of Medicine”. Neste artigo, é salientada a grande disparidade entre o conhecimento público, a agenda política para a saúde pública e a realidade cruel dos números das mortes causadas, hoje, pela tuberculose. 500 mil novos casos de pacientes com tuberculose multi-resistente têm surgido todos os anos!

Em Portugal, apesar de a doença estar aparentemente controlada, dados da Organização Mundial da Saúde indicam a detecção de cerca de 2600 novos casos em 2009 e uma incidência de 29 por cada 100 mil habitantes em 2010.

 

António Piedade

Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

 

 

Referências artigos:

J. Rylance, M. Pai, C. Lienhardt, P. Garner. Priorities for tuberculosis research: a systematic review. The Lancet Infectious Diseasesvolume 10, Issue 12, pages 886 - 892, December 2010. doi:10.1016/S1473-3099(10)70201-2

 

S. Keshavjee, P. E. Farmer, Tuberculosis. Drug Resistance, and the History of Modern Medicine. New England Journal of Medicine, volume 367, pages 931-936, 6 September, 2012. http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMra1205429?query=featured_home

 


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António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).


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