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Aquilo que comemos influencia as alterações climáticas

04 Set 2014 - 10h21 - 5.364 caracteres

Em 2050 existirão 9,6 mil milhões de humanos no planeta Terra. A disponibilidade de alimentos para alimentar esses milões de pessoas é um assunto actual e de preocupação global. O que será necessário fazer a nível agrícola e pecuário para responder às necessidades alimentares futuras?

Num artigo publicado recentemente na revista Nature Climate Change (http://www.nature.com/nclimate/journal/vaop/ncurrent/full/nclimate2353.html), investigadores da Universidade de Cambridge efectuam uma simulação que tenta responder àquela questão, mas mais sobre a perspectiva que envolve as mudanças climáticas resultantes do impacto da tendência actual e futura da dieta humana.

Segundo este novo estudo, a crescente ocidentalização das dietas da maior parte dos países de todo o mundo, em que se verifica um aumento desmedido no consumo de carnes e de alimentos muito processados, terá como impacto um aumento muito superior ao até agora estimado para a emissão de gases com efeito de estufa em 2050.

Os autores do artigo sublinham a necessidade de urgentemente repensarmos cuidadosamente o que comemos e impacto ambiental disso. O crescimento exponencial da população mundial associado à mudança dos gostos alimentares para uma dieta farta em carnes, exige um aumento considerável na produção agrícola, muito para além do que o agora é possível. Para satisfazer os novos apetites de uma população crescente é necessária mais terra cultivável, para criar mais pastagens, o que implica o aumento da desflorestação.

Segundo os autores deste estudo, se se mantiver a actual tendência alimentar, por volta de 2050 a extensão de terras cultiváveis ter-se-á expandido para mais de 42% e o uso de fertilizantes químicos aumentará acentuadamente em cerca de 45 % em relação aos níveis de 2009. E cerca de 10 % das florestas virgens do mundo desaparecerão nos próximos 35 anos.

Se assim se continuar, quando os nossos filhos forem adultos o mundo terá um clima diferente, com mais catástrofes ambientais, com uma maior perda de biodiversidade, com uma menor qualidade de vida para os então 9,6 mil milhões de habitantes humanos neste planeta, o único que conhecemos onde existe vida.

Para responder às necessidades alimentares baseadas no consumo de carne, uma acentuada actividade pecuária aumentará perigosamente os níveis de metano emitido para a atmosfera. Este gás é dez vezes mais potente a causar efeito de estufa do que o dióxido de carbono.

Todos os aspectos mencionados resultarão num aumento de 80% na previsão da emissão de gases com efeito de estufa em 2050, segundo os cientistas deste estudo, o que é muito superior ao estimado só para as emissões resultantes da actividade económica global. Aliás, estas terão de ser somadas àquelas, o que não agoira nada de bom para o ambiente.

“É imperativo que encontremos formas de alcançar uma segurança alimentar sem expandir as culturas e as terras de pastagem. A produção de alimentos é um factor causador de perda de biodiversidade e um grande contribuinte para as alterações climáticas e poluição, pelo que as nossas escolhas alimentares são de um extrema importância e têm consequências não negligenciáveis”, diz Bojana Bajzelj da Universidade de Cambridge e primeiro autor do estudo.

Os autores também chamam a atenção para as consequências nefastas sobre o ambiente causadas pelo sempre excessivo desperdício alimentar verificado nos países desenvolvidos. Estes desperdícios, para além serem em si um mal social, obrigam a um gasto energético necessário ao seu tratamento o que também aumenta a emissão de gases com efeito de estufa.

No artigo, os cientistas apresentam uma composição para a dieta que consideram adequada para evitar as consequências da actual tendência alimentar. Sugerem uma dieta equilibrada composta por duas porções de 85g de carne vermelha e cinco ovos por semana, assim como uma porção de carne de aves por dia. “Não se trata de uma proposta para uma dieta vegetariana, mas sim para uma dieta que inclua carne em quantidades adequadas para uma dieta considerada mais saudável”, diz Keith Richards um outro autor do estudo.

Diminuir os desperdícios alimentares e moderar o nosso consumo de carne numa dieta mais equilibrada é assim considerado essencial para que possamos diminuir o impacto da dieta global sobre as alterações climáticas.

Pense pois no que come, não só para manter um bom estado de saúde, mas também para construir um futuro melhor em termos ambientais.

 

António Piedade 


© 2014 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva


António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).


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