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As cores do Outono

18 Out 2015 - 11h15 - 4.570 caracteres

Com o Outono, chegam os dias de frio e de pouca luz. Mas a paisagem veste-se com matizes de cores vivas, quentes e intensas provenientes da vegetação que muda de cor. Mas porquê estas cores no Outono?

De facto, no Outono, as folhas de algumas árvores abandonam o verde e brindam-nos com uma bela paleta de amarelos e castanhos, a que se juntam tons laranja, vermelho e roxo. A que é que se deve esta mudança?

A cor verde das folhas deve-se ao pigmento clorofila. As moléculas de clorofila absorvem a luz do sol na região do vermelho e do azul e as folhas refletem uma luz plena de verde. Contudo, a clorofila não é uma molécula estável e tem de ser continuamente sintetizada pelas plantas, o que exige grande luminosidade solar e calor.

A maioria das plantas tem um ciclo de crescimento anual que se completa, no hemisfério Norte, no final de Junho. Com as folhas completamente desenvolvidas, começa a produção de hidratos de carbono (açúcares) através da fotossíntese, sendo para isso necessário a clorofila que é o principal pigmento fotossintético. Os hidratos de carbono produzidos nas folhas são armazenados noutras partes das plantas, como ramos ou raízes, e a água e os sais minerais absorvidos pelas raízes são transportados para as folhas, para a produção de mais clorofila. No final do Verão, com os dias mais curtos e frescos, começa a formar-se uma barreira fina na base das folhas que impede a chegada destes ingredientes às folhas. Forma-se um tecido cicatricial (uma cicatriz) que interrompe gradualmente a passagem de água e nutrientes minerais do caule para a folha, e o pecíolo (“pé da folha”) começa a secar. Pela acção do vento, ou apenas pela força da gravidade, a bainha (base do pecíolo) solta-se do ramo e a folha cai.

Mas antes de cair, as folhas assim “isoladas” do resto da planta, deixam de conseguir repor a clorofila que se vai degradando e a cor verde das folhas, conferida por este pigmento, vai diminuindo gradualmente, acabando por desaparecer. Isto é muito acentuado com a chegada do Outono, com os dias de maior frio e de pouca luz, o que obriga a uma resposta adequada por parte da vida.

Principalmente nas plantas de folha caduca (como o carvalho, o plátano, a macieira, a videira, etc.) a produção de clorofila para e, consequentemente, o tom verde desaparece, permitindo assim que sobressaia a cor conferida por outros pigmentos também presentes nas folhas. Um destes pigmentos é o caroteno, que absorve luz na região do azul e azul-verde, refletindo radiações de tons alaranjados. Os pigmentos de caroteno são bastante mais estáveis que a clorofila, e quando esta começa a desaparecer das folhas, são os carotenos que conferem às folhas a coloração amarela dourada.

Por seu lado, as xantófilas, outro grupo de pigmentos foliares, são responsáveis pelas tonalidades amarelas de muitas folhas.

Um outro grupo de pigmentos presentes nas folhas é o constituído pelas antocianinas, que absorvem a luz desde o azul até ao verde. Assim, a luz refletida pelas folhas que contém antocianinas é na região do vermelho do espectro visível. As antocianinas são produzidas pelas plantas como o resultado de uma reação com os açúcares das células vegetais. A acumulação progressiva de açúcar leva à síntese de antocianinas no final do verão, criando assim os tons avermelhados das folhas de outono, quando a concentração de clorofila diminui.

Contudo estes pigmentos também se vão degradando, embora em muitos casos as folhas acabem por cair antes de isso acontecer, cobrindo o chão de múltiplos tapetes coloridos. As folhas que se mantêm nas árvores acabam por adquirir uma cor acastanhada. Esta deve-se aos taninos, pigmentos mais estáveis do que os outros referidos e que acabam sozinhos na tela foliar.

Todo este processo depende da temperatura e da luz do Sol, o que faz com que em cada região do planeta as cores do Outono se manifestem de forma diferente.

 

António Piedade


© 2015 - Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva


António Piedade

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 500 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de sete livros de divulgação de ciência: "Íris Científica" (Mar da Palavra, 2005 - Plano Nacional de Leitura),"Caminhos de Ciência" com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011), "Silêncio Prodigioso" (Ed. autor, 2012), "Íris Científica 2" (Ed. autor, 2014), "Diálogos com Ciência" (Ed. autor, 2015) prefaciado por Carlos Fiolhais, "Íris Científica 3" (Ed. autor, 2016), "Íris Científica 4" (Ed. autor, 2017).


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